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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

TRABALHO SEXUAL É TRABALHO

 

 

 

Escutado esta madrugada numa casa de alterne lisboeta







- "Óla..., temos novidade!" - comentei com os meus botões quando entrei no lupanar e vejo em cima da minha mesa costumeira, no canto mais recôndito da sala, um balde de gelo com uma Möet & Chandon espetada, e nas três que lhe ficam contíguas, prismas de reservado. De nada me valeram as lamúrias ao solícito chefe de sala a quem há anos venho untando generosamente as mãos e que logo me foi avisando que também estaria esta noite privado da Sueli, a minha princesa da noite. Ameacei que me iria embora e que não voltaria a pôr os pés naquela espelunca, mas o sorriso sarcástico do meu interlocutor fez-me cair na realidade... definitivamente, não somos quem julgamos ser! Sentei-me o mais perto que pude do meu cantinho, mandei vir a minha garrafa de Famous Grouse e como retaliação, tinha que haver alguma retaliação!, resolvi recusar companhia na mesa. - "E há-de me ouvir!, esse salafrário que me priva da minha sessão terapêutica."  - voltei eu aos meus botões.
Não tardou a que o chefe de sala passasse por mim às arrecuas, fazendo repetidas vénias - "Por aqui, Senhores Doutores, façam o favor." -, seguido, para meu tal espanto que nem consegui dizer coisíssima nenhuma, de Victor Gaspar e Carlos Moedas. - "Ora aqui estamos. Vossas Excelências ficam à vontade, que nestas mesas pegadas ninguém se vai sentar. Com Suas licenças, vou então chamar as meninas." - E às arrecuas, curvado com a cabeça quase a tocar o chão, lá se retirou ele até passar a porta para os reservados da casa.
Pouco tempo passou até Carolina, rapariga já entradota nos trintas, ar altaneiro, aparecer à frente de Sueli, e as duas dirigiram-se à mesa dos doutores. Irritou-me o beliscão disfarçado que Sueli me deu no pescoço ao passar por mim, sem um olhar sequer. Pus-me à escuta.

Carolina (cumprimentando Victor Gaspar com um aperto de mão) - Como está o doutor Gaspar? - (as pernas tremiam-lhe) - Não imagina como eu gosto de homens assertivos. Homens que sabem mandar... e com sentido de humor! - (grande suspiro) - Chorei a rir com aquela, no outro dia, do ano de 2015 ser o que vem logo a seguir ao de 2014, ahahah  - (enquanto se vai sentando ao lado dele, aponta o lugar ao lado de Carlos Moedas e ordena a Sueli) - Senta aí ao lado do doutor. - (virando-se para Carlos Moedas) - Esta é a Sueli. Espero não o desapontar com a escolha que lhe fiz.

Carlos Moedas (Muito atrapalhado, olhando em todas as direcções mas sem ver nada já que tinha tirado os óculos para os limpar, pois ficaram todos embaciados quando a Sueli traçou a perna e a mini-saia lhe subiu até deixar ver a calcinha rendada) - Hããã... Sim... Como?... Pois...

Apresentações feitas que estavam, enquanto o empregado deixava na mesa dois tubos de whisky com soda e umas tigelas de frutos secos, Carolina pegou abruptamente na garrafa de Möet & Chandon fazendo com que, ao abri-la, jorrase um gêiser de líquido que se derramou pelo chão e a seguir no balde de gelo para onde ela aproximou o gargalo. Depois de todos se terem rido muito, Carolina serviu duas taças e recolocou a garrafa, já quase vazia, no balde do gelo. 

Victor Gaspar (esboçando um sorriso amistoso) - Ora vamos lá então ao que me trouxe aqui, que isto não pode ser só reinação pois a situação do País, infelizmente, não o permite. O que eu preciso, ou por outra, o que Portugal precisa, é que a campanha "Trabalho Sexual é Trabalho" seja um sucesso e que rapidamente todas as prostitutas, proxenetas, stripteasers, homosexuais, trabalhadores de linhas eróticas, enfim, toda a gente que se dedica à prestação de serviçoes sexuais, independentemente do género, possa ter acesso pleno a um estatuto legal que lhes faculte, no futuro, reformas dignas e, quem sabe, até subsídios de desemprego. Eu escolhi a Carolina para convencer as colegas e os colegas a colectarem-se e a começarem desde já a passar recibos verdes, uma vez que a Carolina é uma referência nestas lides, com obra já publicada e tudo! Enquanto nós não aprovarmos a lei que irá legalizar as profissões, que vamos tentar que seja o mais breve possível, podem todos passar os recibos como escritores, ou tradutores, ou... sei lá eu?, o que é importante é que comecem desde já a capitalizar para garantirem uma velhice com dignidade!

Sueli (rodando um palito quebrado dentro da taça do champagne, retirando-lhe assim o gás e deixando escorrer metade do líquido da taça para o pires em que assenta) - Pôxa vida, Portugau é um Paix legau, meismo! Os góvernantchi se preocupam inté com nóix, p'ra nóix poder ter subísidjio dê disemprego e até aposentadoria.

Carolina (esvaziando o Möet & Chandon nas taças e enfiando depois a garrafa, invertida, de novo no balde) - Ó doutor, os seus pedidos são ordens. Não me tivesse eu chateado com os Super-Dragões e pode ter a certeza que até da cobrança dos impostos lhe tratava, caso fosse preciso. Posso mandar vir outra garrafinha, que esta já era? - (sem esperar resposta fez sinal ao empregado que trouxesse outra Möet & Chandom) - Dão-me licença que eu vou só ali refrescar-me um pouquinho e volto já já, está bem? - (virando-se para Sueli) - Vens comigo Su?

Carlos Moedas (aproveitando estar a sós com Victor Gaspar, que olha de boca aberta para o talão de 150 €uros que o empregado acaba de juntar aos que já havia na mesa, trilhados por baixo dum cinzeiro) - Ó Gaspar, esta bezerra diz que faz, entre saídas e comissões nas bebidas, uma média de quatrocentos €uros por dia. Isto multiplicado por vinte e cinco que são os dias que trabalha por mês são dez mil €uros mês! A cinquenta e quatro e meio por cento que é a taxa de IRS correspondente, multiplica agora por doze e depois por para cima de cento e dez mil que é em quanto se estima o número de pessoas que andam nestas vidas... como dizia o Guterres, é fazer as contas! Isto é lá para cima dum balúrdio!  Com dez por cento de sucesso temos o problema do défice resolvido. E a tendência é para aumentar... - (faz uma careta) - como diz o Passos, o desemprego é uma oportunidade, estás a ver?

Victor Gaspar (que não ouviu uma palavra, com cara de quem viu fantasma, mostrando o talão a Carlos Moedas) - Tu já viste o preço do champagne aqui? A malta não pode pagar isto com o cartão do ministério! Haverá maneira de mitigar isto? Trazes dinheiro contigo? Esta garrafa devia ir para trás...

Sueli (que entretanto regressara à mesa) - Vai p'ra trais não que está áberta, ô doutô! - (enquanto se serve de mais uma taça) - Maix num esquenta não, ô doutô. Aqui passam factura do qui cê quiser. Olha, cursinho dê formáção está muito na môda, num tá sabendo?  

Carolina (de pé, com a mão na anca) - Como é? Os doutores vão querer ficar aqui toda a noite a discutir o preço do champagne? Se não querem saír - (afaga as costas de Victor Gaspar) -, pelas olheiras o doutor Gaspar parece-me que precisa mesmo é de dormir!, eu pedia então licença para me retirar, a ver se ainda arranjo um trabalhinho para compor o dia.

Carlos Moedas - Olha lá, ó Sueli, os cem €uros para ti também podem entrar na factura?

Eu conhecia bem a resposta. A última a morrer finou-se. Levantei-me e dirigi-me para a saída. Pelo caminho cruzei-me com o chefe de sala que me estendeu a mão, desejando-me uma boa noite. Custou-me muito a adormecer...  estava irritado que por lhe ter passado uma nota de vinte €uros quando lhe correspondi ao cumprimento.

domingo, 7 de outubro de 2012

VAI SER FUTEBOL TOTAL!

 

 

Escutado ontem à tarde em Alcochete







Luís Duque e Godinho Lopes olham por detrás duma rede, com ar preocupado, para os jogadores da equipa principal do Sporting sentados em círculo no relvado, ouvindo o que Oceano Cruz terá para lhes dizer antes da partida para o Porto.

Godinho Lopes - Que achas que o Oceano lhes estará a dizer?

Luís Duque - Sei lá, coitado! Que queres que ele lhes diga? Depois de terem levado três secos daqueles pernetas do Videoton é capaz de os estar a convencer que qualquer derrota de um só digito no Dragão já será bom resultado.

Godinho Lopes - Às tantas o melhor era dizer-lhe para usar a táctica do autocarro. Pelo menos não mamamos muitos golos! Neste momento o Rui Patrício é o único activo que ainda é capaz de nos poder render alguns patacos em Dezembro, pôrra!

Luís Duque - Eh pá, é verdade que se levarmos outra cabazada já de seguida até o Paulo Bento pode começar a ter problemas em nos pôr o gajo na montra do mundial, mas não te esqueças que aquela treta do João Pinto me correu mal em tribunal! Não é com as comissões dum guarda-redes que eu vou conseguir pagar a multa que me espetaram! Há que ir ao Porto arriscar tudo! Perdido por cem perdido por mil. 

Godinho Lopes - Então ele que os convença que a culpa era toda do Sá Pinto, pá. Que o Sá é que não valia nada como treinador. Que os gajos até são todos uns grandes craques!

Luís Duque - Pois, isso era bom, era, mas achas que o Oceano é parvo, não? Põe-se a dizer mal do Sá Pinto e arrisca-se a  levar uma polinheira que nunca mais se endireita.'Tás mas é maluco, pá.! Olha o Artur Jorge... nunca mais lhe ouvimos uma poesia!

Entretanto o Mister bateu três palmas, os jogadores levantaram-se dum salto, alinharam-se atrás dele em duas filas, e ao seu comando seguiram todos a cantar em direcção aos balneários:

♪♫ Vamos lá cambada, ♫♪♫ todos à molhada ♪♪♫♪ vai ser futebol total ♫♪



segunda-feira, 17 de setembro de 2012

EXCLUSIVO TVI

 

 

Escutado na São Caetano à Lapa





São muitos os militantes, na maioria jotinhas, que assistem à conferência de imprensa de Paulo Portas. Olham boquiabertos para a televisão, na sala nobre da sede.

Televisão - Se eu estava de acordo? Claro que não!

Pedro Pinto (tirando os óculos e rodando-os no ar) - A lata do bicharoco!

Jotinhas (em uníssono) - O-BI-CHA-RO-COOOO!

Jorge Moreira da Silva (baixando-lhe o braço) - Chchch... está lá quieto e deixa ouvir...

Televisão - Se eu os avisei? Claro que avisei!

Pedro Pinto (recolocando os óculos na cara) - Só tenho duas palavras INA-CREDITÁVEL!

Jotinhas (em uníssono) - I-NA-CRE-DI-TÁ-VELLL!

Pedro Passos Coelho (levanta-se dum salto e diz com voz de baritono) - MOREIRA DA SILVA? SALA DE CRISE, JÁÁÁ!

Avança até uma porta num dos extremos do salão e depois de dar passagem a Jorge Moreira da Silva entra e bate com a porta atrás de si. É um espaço pequeno, sem qualquer janela, cuja única peça de mobiliário é uma mesa redonda com cerca de um metro de diâmetro, bem no meio da sala, por cima da qual pende um lustre de cristal amarelado por muitos fumos acumulados. Na parede do lado esquerdo, uma fotografia de Sá Carneiro, na do lado direito uma bandeira do PSD e na do fundo um placard de cortiça com uma fotografia de António José Seguro pregada com pioneses e vários dardos espetados, nela e à sua volta. Em cima da mesa três cinzeiros repletos de cinzas e de pontas de cigarros e de charutos, alguns a fumegar!, para além de um telefone cujas dez teclas estão programadas para ligações directas aos ex-presidentes que ainda respiram, sendo vermelha a que tem as iniciais ACS.

Um depois do outro, mãos atrás das costas, Pedro Passos Coelho e Jorge Moreira Silva caminham pensativos à volta da mesa, num trilho duma alcatifa que em alguns pontos já deixa o soalho de madeira espreitar e que aqui ou ali deixa adivinhar que um dia foi cor-de-laranja.

Jorge Moreira da Silva (parando de repente) - E se telefonassemos ao Marques Mendes a pedir-lhe um conselho? Chama-se aí o Pedro Pinto que o gajo dá-se bem com todos...

Pedro Passos Coelho (esbarrando-se nas costas dele) - Boa! Bem pensado! - (abre a porta, põe a cabeça de fora e berra) - PEDRO PINTO?

Pedro Pinto (abrindo uma porta do armário sobre o qual repousa a televisão) - Querem uma fotografia do Portas para substituir a do Seguro, é? 

Pedro Passos Coelho - Nada disso. Chega aqui! - (deixa Pedro Pinto entrar e fecha a porta) - Ouve lá, liga-nos aí ao Marques Mendes, tu que te dás bem com ele, e tenta saber o que o gajo faria se fosse ele que tivesse que resolver esta embrulhada, ok?

Pedro Pinto  - Ok chefe, no próblémá eheh. - (carrega no botão LMM e enquanto aguarda começa a cantarolar ♪♫ paz, pão, p.. ♫♪) - Estou? Luís? - (pausa) - sou eu, Pedro Pinto, então? - (pausa) - pois é, foi uma grande nóia, foi. Aquele Paulo!... - (pausa) - pois avisaste, avisaste. Olha lá, o que achas que devemos fazer? Como antigo presidente do partido não podemos deixar de nos aconselhar contigo! - (pausa) - pois, pois, compreendo... está bem... ok, um abraço. Olha, um dia destes temos que ir ali ao Guincho fazer body-board os dois. Um abraço - (pousando o auscultador no descanso do telefone) - Nada feito, chefe. Diz que tem exclusivo com a TVI. Para vermos o programa na Quinta-feira que ele vai explicar o que o PSD deve fazer.

Pedro Pinto volta ao salão enquanto Passos Coelho e Moreira da Silva retomam a marcha, Jorge atrás de Pedro... ou será Jorge à frente de Pedro? O círculo em que caminham é demasiado pequeno para podermos afirmar com certeza. De repente...

Jorge Moreira da Silva (estaca levantando um indicador) - Santana Lopes! O Santana dava-se bem com o Portas. Chamamos o Pedro Pinto de volta? Ele dá-se bem com todos!

Pedro Passos Coelho (mais uma vez é surpreendido e não evita outra cabeçada na nuca de Moreira da Silva) - Isso! O Sacana Lopes eheh! Bem lembrado! - (abre a porta, põe a cabeça de fora ainda a massajar o nariz dorido e berra) - PEDRO PINTO?

Pedro Pinto - Então sempre querem a fotografia do Portas!?  - (levanta-se, tira uma baforada do charuto e, avança para o armário expelindo vagarosamente o fumo e rodando um olhar superior pelos jotinhas) - Eu não lhes dizia? Eu é que sei...

Pedro Passos Coelho - Deixa-te de armar ao pingarelho que não é nada disso, pá! Vem daí. - (já com Pedro Pinto na sala) - Liga aí ao Santana Lopes, pá. O menino guerreiro de certeza que já desenhou um plano de ataque. Tu dás-te bem com ele, não dás? Claro que dás... dás-te bem com todos!

Pedro Pinto  - Santana, it is! eheh. - (carrega no botão PSL e enquanto aguarda começa a cantarolar ♪♫ paz, pão, povo e l. ♫♪) - Estou? Pedro? - (pausa) - sou eu, Pedro Pinto, então? - (pausa) - pois avisaste, avisaste. Aquele Paulo!... Olha lá, e o que achas que devemos fazer agora? De certeza que desenhaste um plano de ataque e, como presidente do partido que foste, nós não podemos deixar de te perguntar... - (pausa) - pois, pois, compreendo... está bem... ok, ok. Um abraço Pedro... olha, um dia destes temos os dois tomar um copo ao Elefante. Um abraço, pá. fica bem. - (pousando o auscultador no descanço do telefone) - Nada feito, patrão. Diz que tem exclusivo com a TVI. Para vermos o programa na Sexta-feira que ele vai dar a táctica que deve ser usada para se poder controlar o Paulo Portas.

Pedro Pinto regressa ao salão. Passos Coelho e Moreira da Silva regressam ao sulco da alcatifa, onde, pelos acidentes anteriores, tendemos agora a considerar que é Pedro quem segue atrás de Jorge. Eis senão quando...

Jorge Moreira da Silva (virando-se e segurando Passos Coelho antes que este lhe desse outra cabeçada) - Tens alguma coisa contra que se fale com a megera? Ela conhece bem o Portas e podemos usar o Pedro Pinto que se dá bem com ela... ele dá-se bem com toda a gente!

Pedro Passos Coelho (Olhos muito abertos e com o nariz quase encostado ao nariz de Moreira da Silva) - A Ferreira Leite? Não, não tenho nada contra! Quero lá eu saber!... precisamos é de encontrar uma solução para resolver esta trapalhada - (abre a porta, põe a cabeça de fora e berra) - PEDRO PINTO?

Pedro Pinto (levanta-se dum salto) - JÁ ESTOU A IR! - ( com a atrapalhação deixou cair o Cohiba Julieta nº2 que acabava de acender e sem querer pisou-o) - FÓNIX! Este já era! - (avança, nitidamente abatido,  para a sala de crise, mas a meio do caminho hesita e pára, olhando a cabeça de Passos Coelho que ainda espreita da porta) - Não me vais dizer que desta vez é que era mesmo a fotografia que querias!?

Pedro Passos Coelho - Acaba lá com essa palermine das fotografias, caramba! Anda daí - (já com Pedro Pinto ao lado, a vasculhar nervosamente os cinzeiros) - Ouve, a Ferreira Leite é que tem a mania que tem soluções para tudo! Vá, liga lá para ela e vê o que tem para nos dizer.

Pedro Pinto  - Miss Nelita, eheh. - (carrega no botão MFL e enquanto aguarda começa a cantarolar ♪♫ paz, pão, ♫♪) - Foi rápido! Estou? Quem fala? - (pausa) - Drª Ferreira Leite? Desculpe que nem a estava a reconhecer... pela voz parecia-me que falava com uma rapariguita de vinte anos! - (pausa) - Sou eu! O Pedro Pinto... como está a doutora? - (pausa) - Não diga isso! O tempo até parece que não passa pela drª Ferr... - (pausa) - Eheh, ok, Manuela. Olhe Manuela, estou-lhe a ligar porque... - (pausa) - pois o Paulo! aquele Paulinho das feiras!!... avisou, claro que avisou! Mas olhe lá Manuela, e o que acha que devemos agora fazer? Como antiga presidente do partido eu não podia deixar de me aconselhar consigo. - (pausa) - pois, pois, compreendo... está bem. Olhe Manuela, um dia destes ainda a levo para um pé de dança no Stones. Aquilo parece que está catita outra vez. Gostei de ouvi-la. Um beijinho - (pousando o auscultador no descanso do telefone) - Nada feito, comandante. Diz que tem exclusivo com a TVI. Disse para vermos o programa no Sábado porque ela vai explicar o que este PSD deve fazer. - (enquanto regressava à sua cadeira no salão nobre tentando endireitar uma ponta de charuto surrupiada dum dos cinzeiros da sala de crises, ia comentando com os seus botões) - Não entendi bem aquele "este PSD" que ela disse... e o tom pareceu-me um pouco sarcástico!

Entretanto, Passos Coelho e Moreira da Silva perseguem-se novamente no trilho da alcatifa, até que...

Jorge Moreira da Silva (dá um salto para fora do trilho) - Como não me lembrei dele antes? O Professor Marcelo, pá!

Pedro Passos Coelho (pára, mas sente-se baralhado sem perceber onde estava o Moreira da Silva. Por fim encara-o) - Boa! E a esse qualquer um pode falar! Até ao diabo atendia o telefone se lhe ligasse. Liga tu para não parecer que eu estou muito ansioso.

Jorge Moreira da Silva (carrega no botão MRS e cantarola enquanto aguarda ♪♫ Marcelito, já te tenho dito, que não é bonito♫♪)  Ãhh Está lá? Professor Marcelo? - (pausa) - Aqui Moreira da Silva. Como está o professor? - (pausa) - Pois avisou, avisou... a Vichyssoise?, ó lá se me lembro!... - (pausa) - Pois, professor, estou a ligar-lhe precisamente porque, como presidente do partido que foi, eu não podia deixar de me aconselhar consigo acerca do passo a darmos agora - (pausa) - pois, pois, eu compreendo... pois, está bem... ok. Um abraço professor, gostei de ouvi-lo. Bom mergulho, então, e veja lá que a água não esteja fria demais - (pousando o auscultador no descanso do telefone) - Nada feito, Pedro! Diz que tem exclusivo com a TVI. De qualquer maneira, aconselhou-nos a vermos o programa no domingo porque diz que vai explicar em pormenor o que o PSD deve fazer agora - (revira os olhos e suspira) - e aposto que também o que já devia ter feito e ainda o que deverá fazer no futuro próximo e até num futuro longínquo!

Os dois põem-se a olhar para o teclado do telefone com ar desconsolado

Jorge Moreira da Silva (torcendo o nariz) - Durão Barroso?

Pedro Passos Coelho (abanando que não com a cabeça) - Esse quer lá saber disto! Continua armado em cherne!... repara que a chamada é de Portugal e nem sequer atende o telefone!

Jorge Moreira da Silva (coçando a cabeça) - No Balsemão nem vale a pena pensar... vai-te logo pedir a RTP em troca e o Relvas não deixa! - (metendo a mão no bolso e coçando agora as partes pudendas) -  O Machete ou o Nogueira?... só se assaltassemos um banco para lhes podermos pagar a conta que nos haviam de mandar... escritórios de advogados! - (olhando Passos Coelho nos olhos) - Restam-nos o Meneses e o Cavaco, pá.

Pedro Passos Coelho (fazendo uma careta) - Ao Meneses nem pensar em falar! Já sei que o conselho dele ia ser remodelar o governo e aproveitar para dar um ministério ao puto dele, que é o melhor do mundo e blá, blá, blá... já não o aguento! - (encolhe os ombros em sinal de conformismo) - Olha, tem que ser e o que tem que ser tem muita força. Ligo eu ao Cavaco - (carrega na tecla vermelha e suspende a respiração) - Está? Senhor Presidente? - (pausa) - Passos Coelho. Como está o senhor Presidente? A sua senhora? - (pausa) - Pois preveniu senhor Presidente, preveniu, mas  devo lembrá-lo que também preveniu que queria um governo de maioria absoluta, e como o povo votou... - (pausa) - pois, eu sei que nunca se engana - (tapando o bocal enquanto Cavaco Silva fala) - se diz que pode chover mas que também pode fazer sol como se havia de enganar? - (destapando o bocal) - pois, eu compreendo que agora é Presidente de todos os portugueses, mas não será exagero eu ter que marcar uma audiência? - (pausa) - pois, eu sei que o Tozé também... - (pausa) - Mas quinta-feira pode ser já... - (pausa) - Muito bem, senhor Presidente, peço desculpa por ter incomodado. Faça o favor então de ter uma muito boa noite. Cumprimentos à sua esposa. Boa noite. Com licença. - (pousa o auscultador no descanso do telefone e volta-se para Moreira da Silva) Olha Jorginho, nada a fazer! Não se quer meter porque diz que já está com a popularidade baixa de mais. - (Põe ar resoluto) -  Convoca a Comissão Permanente que eu convoco a Comissão Política. Se é peixeirada que eles querem, é peixeirada que eles vão ter!

domingo, 16 de setembro de 2012

VIRA O DISCO E TOCA O MESMO


 



Escutado esta manhã no café Velasquez






Nelo (sentado na esplanada do café) - Olha o Nando, carago! Há quanto tempo!! Tudo bem contigo, pá? - (Dobra o Expresso e mete-o num saco plástico, junto com outros jornais e revistas, que repousava na cadeira do lado, deixando-o cair depois ao seu lado, no chão) - Senta aqui pá, senta - (batia com a mão no tampo da cadeira agora livre) -, estiveste na mánifes, carago? Aquilo é que foi!! Ele era gente até dizer chega, carago! Compreende-se, não é? Fim de semana sem bola... 

Nando (sentando-se enquanto estalava os dedos para um empregado que atendia uma mesa um pouco mais adiante) - Manisfestações eu? Estás mas é maluco! Dassss. - (vira-se para o empregado que lhe dava agora atenção) - Traga-me um pingado, por favor - (tamborilando com os dedos na mesa e olhando a toda a roda) - Então e gajas, não há gajas? 

Nelo (esfregando as mãos) - Gajas? Olha, tivesses ido ontem à mánifes! Estava melhor que no S. João, é o que te conto, pá - (sorve saliva com ruído) - Aquilo não foi como as mánifes do costume, pá! Ele era doutoras e engenheiras por todo o lado, pá! BOUAS!!! Fartei-me do roça-roça, carago! - (volta a sorver saliva, desta vez, para além de ruidosa, também demoradamente e ao mesmo tempo que esfregava com força as mãos entre as pernas)

Nando - Continuas o mesmo tarado de sempre, Nelo! Pois eu desde que emigrei para a Suíça que não quero cá saber de políticas, pá. E não fosse o gajedo de lá - (encolhe os ombros enquanto coça a cabeça) -, de lá não que a maioria até vai de cá!,   mas dizia-te eu, não fosse o gajedo lá andar louco, a pedir aos quinhentos francos por um servicinho, já nem de férias cá vinha! É o que eu te digo, pá!!

Jornal de Notícias
Nelo (puxando o JN do saco e exibindo a capa) - Olha-me bem para isto Nando! Não cabia nem mais um ovo na Av. da Liberdade... foi bonita a festa, pá!

Nando - Podia-te dizer que fico contente, Nelo, mas mentia-te. Isto até me mete nojo... isto é o vira o disco e toca o mesmo! O que me vale é que amanhã lá volto para o meu trabalhinho na Suíça e até ao próximo verão não penso mais nisto! Digo-te uma coisa, Nelo, sabes que eu nem sou de touradas, mas em Portugal, enquanto esta festa não virar festa brava... percebes o que eu digo?

Entretanto apareceu por ali o Pedro Abrunhosa, provavelmente vindo algures da D'Bandada 2012 que animou a moite portuense, e começa a cantar acompanhando-se com um pequeno teclado electrónico ♪♫ Se eu fosse um dia o teu olhar ♫♪  

Nando (remexe nos bolsos e quando tira as mãos mostra um maço de notas) - Ouve lá, Nelo, por acaso não tens aí uma moedinha para dar a este ceguinho? A ver se o gajo vai tocar cantar para outro lado, que o desgraçado está a dar-me cabo dos ouvidos!




AS CORES DO PAQUIDERME

Por Paulo Cunha Porto

Cesse o entusiasmo com o que a multidão canta! É, por certo, bom ver que as Pessoas tentam vencer a apatia que as trouxe à fossa onde se agitam. Mas indignarem-se em desfile contra o Governo troikado, por se assemelhar demasiado aos protestos contra o Socratismo em estado terminal, a breve trecho revelará ser este mar de gente triste e coerentemente assimilável às marés que, ciclo após ciclo, enchem e vazam, trazendo mais do mesmo.(...)

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